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sábado, 3 de novembro de 2012

Abigail uma "MacGyver" em desarmar bombas


Por Hermes C. Fernandes ►

http://www.osarrafo.com.br/v1/wp-content/uploads/2012/10/Bomba-chiando.jpgQuem não se lembra de MacGyver e sua fantástica habilidade de improviso? Com um clipe de papel, ele era capaz de desarmar uma bomba.
Dizem até que em um dos episódios da série, ele transformou uma velha máquina de lavar em helicóptero. Recentemente,alguém postou nas redes sociais uma foto em que o ator Richard Dean Anderson (o MacGyver na série Profissão: Perigo) aparece mais velho, inconsolável, parado numa estrada com o carro enguiçado com o capuz aberto. Que decepção! Logo ele, o gênio do improviso!
Brincadeiras à parte, vez ou outra, todos temos que bancar o MacGyver. Quem nunca precisou desarmar uma bomba? Não me refiro a um artefato explosivo propriamente, mas a uma situação potencialmente explosiva, capaz de fazer ir pelos ares tudo o que amamos ou que nos tenha custado tão caro.

Como impedir que uma bomba relógio seja detonada depois que o cronômetro entrou em contagem regressiva? Que fio cortar? O vermelho ou o azul? Ou quem sabe, o amarelo? Qualquer erro será fatal.
Segundo as Escrituras, havia um homem muito rico cujas terras ficavam no Carmelo. Seu ramo de atividade era pastoril. Possuía milhares de ovelhas, e tinha a seu dispor muitos tosquiadores. Seu nome, Nabal. Apesar de rico e muito bem casado, Nabal era um troglodita. Homem rude, maligno, que desonrava o sobrenome que carregava. Ao contrário dele, sua mulher, Abigail, era um doce, bonita por dentro e por fora. Juntos formavam uma espécie de versão bíblica do clássico “A Bela e a Fera” (apesar de seu caráter ser tão diferente do da Fera).
À época, Davi estava foragido. Sua cabeça estava a prêmio. Saul o procurava por todos os cantos de Israel, no afã de tirar a vida daquele que se constituía numa ameaça ao seu trono.
Mas Davi não estava só. Com ele estavam ao menos seiscentos homens. Imagine o desafio que era ter que alimentar aquela tropa diariamente. Não sei o que era mais difícil, mantê-los escondidos ou alimentá-los.
Chegando à região do Carmelo, Davi envia dez dos seus moços a Nabal para dar-lhe alguma satisfação e pedir que lhes enviasse algum provento. Davi não estipulou nada. Deixou-o à vontade.
Ora, com seiscentos homens, Davi poderia ter invadido qualquer propriedade e tomado dali o que bem entendesse. Mas ele era um gentleman. Recusava-se a causar prejuízo a quem quer que fosse. Ele preferiu apelar à sua generosidade, não ao seu medo.
Confira o recado que Davi envia a Nabal:
“Assim direis àquele próspero: Paz tenhas, e que a tua casa tenha paz, e tudo o que tens tenha paz! Agora, pois, tenho ouvido que tens tosquiadores. Ora, os pastores que tens estiveram conosco; agravo nenhum lhes fizemos, nem coisa alguma lhes faltou todos os dias que estiveram no Carmelo. Pergunta-o aos teus moços, e eles to dirão. Estes moços, pois, achem graça em teus olhos, porque viemos em boa ocasião. Dá, pois, a teus servos e a Davi, teu filho, o que achares à mão.”
Que postura deveríamos esperar de Nabal? No mínimo, decência. Mesmo que não atendesse à solicitação de Davi, ele deveria, no mínimo, responder com civilidade. Em vez disso, ele diz:
“Quem é Davi, e quem é o filho de Jessé? Muitos servos há hoje, que fogem ao seu senhor. Tomaria eu, pois, o meu pão, e a minha água, e a carne do meu gado que abati para os meus tosquiadores, e o daria a homens que eu não sei donde vêm?”
Quanta arrogância e mesquinhez! Imagine agora a reação de Davi ao receber a resposta malcriada de Nabal. O que esperar do homem “segundo o coração de Deus”? No mínimo, ele deveria simplesmente relevar, deixar pra lá. Mas Davi não está só. Ele precisa alimentar aqueles homens. Em contar que sua vida está correndo risco. Saul está na sua cola. Quanta pressão!
Insatisfeito com a resposta de Nabal, Davi ordena que seus homens cinjam a espada e se preparem para dizimar os homens da casa de Nabal. Ninguém seria poupado. Aquilo não ficaria barato. Em poucas horas, mais precisamente até o amanhecer, não sobraria ninguém daquela casa nem pra contar a história.
“Na verdade que em vão tenho guardado tudo quanto este tem no deserto, e nada lhe faltou de tudo quanto tem, e ele me pagou mal por bem. Assim faça Deus aos inimigos de Davi, e outro tanto, se eu deixar até amanhã de tudo o que tem, até mesmo um menino.”
A bomba estava armada. O cronômetro foi ativado. A contagem começou. E agora, quem poderia evitar aquela tragédia? Quem seria capaz de desarmar aquela bomba?
Entra em cena um dos moços de Nabal, membro da brigada anti-incêndio, que percebendo a besteira que seu senhor havia feito, corre e anunciar a Abigail:
“Eis que Davi enviou mensageiros desde o deserto a saudar o nosso amo; porém ele os destratou.Todavia, aqueles homens têm-nos sido muito bons, e nunca fomos agravados por eles, e nada nos faltou em todos os dias que convivemos com eles quando estavam no campo. De muro em redor nos serviram, assim de dia como de noite, todos os dias que andamos com eles apascentando as ovelhas. Considera, pois, agora, e vê o que hás de fazer, porque o mal já está de todo determinado contra o nosso amo e contra toda a sua casa, e ele é um homem vil, que não há quem lhe possa falar.”
Repare nisso. Aquele servo reconhecia que a presença de Davi e de seus homens ali só trouxe benefício para o seu senhor. Naqueles dias, ninguém ousava invadir aquela propriedade (o que era muito comum à época). A presença deles impunha respeito e provia segurança àquelas terras. Nada mais justo do que prover suprimento àqueles que lhe serviam de muro sem pedir nada em troca por isso. Mas Nabal não pensava assim. Agora estava nas mãos de Abigail impedir que a desgraça se abatesse sobre o seu marido e tudo o que possuía.
O texto bíblico diz que “Abigail se apressou”, tomou todo tipo de suprimento, e na companhia de alguns moços, saiu ao encontro de Davi. Detalhe: sem avisar a Nabal. O risco era enorme. Seu marido não aprovaria aquilo. Sua soberba o impedia de enxergar a bobagem que havia cometido e jamais permitiria que sua esposa se metesse para desfazer o mal-entendido.
Tão logo deixou as cercanias da propriedade, Abigail se depara com Davi, ladeado por quatrocentos guerreiros, vindo na direção contrária. E agora ou nunca. A bomba estava ali, diante dela, e precisava ser desarmada. Se cortasse o fio errado... BOOM! Ia tudo pelos ares, inclusive ela.
A primeira coisa que Abigail faz é apressar-se, descer do jumento, e prostrar-se diante de Davi. Repare que é a segunda vez que lemos no texto que Abigail apressou-se. Era como se ela ouvisse o tic-tac da bomba relógio. Não dava pra fica de lenga-lenga. Se algo tinha que ser feito, deveria ser imediatamente. Antes que fosse tarde demais.
Prostrar-se era um gesto de humilhação e rendição. Com efeito, ela disse: Não vim aqui para bater boca com o senhor. Não me atrevo a argumentar. Nem faço questão de ter razão. Apenas conto com sua compaixão. Meu marido é um homem vil. Ele bem que merece o que o senhor se propôs a fazer. Mas admito que a falha foi minha, pois deveria ter estado lá quando seus servos chegaram. Com certeza, eu o teria impedido de responder daquela maneira. Mas a minha omissão nos custou caro.
Àquela altura, argumentar com Davi equivalia a cortar o fio errado. Defender seu marido, nem pensar. Em vez disso, ela assume a responsabilidade.
Quanta coisa evitaríamos se tão somente admitíssemos a responsabilidade por aquilo que colhemos? Em vez disso, preferimos buscar bodes expiatórios. Repetimos sistematicamente a atitude de Adão que responsabilizou Eva por haver comido o fruto, e fazemos coro à desculpa de Eva ao responsabilizar a serpente. No fundo, queremos que alguém segure a batata quente, nem que este alguém seja o próprio Deus.
Não pecamos apenas quando fazemos o que não deveríamos ter feito. Também pecamos quando deixamos de fazer o que deveríamos ter feito. Omitimo-nos e temos a cara de pau de querer sair ilesos. Quem protagoniza um erro é tão culpado quanto quem deixou acontecer, estando em seu poder evitar.
Agora, Abigail recorre à consciência de Davi.
- Será que vale a pena sujar as mãos com isso? Como você vai conviver com esta culpa?
Repare no que ela mesma diz:
“Perdoa, pois, à tua serva esta transgressão, porque certamente fará o SENHOR casa firme a meu senhor, porque meu senhor guerreia as guerras do SENHOR, e não se tem achado mal em ti por todos os teus dias, e, levantando-se algum homem para te perseguir, e para procurar a tua morte, contudo a vida de meu senhor será atada no feixe dos que vivem com o SENHOR teu Deus; porém a vida de teus inimigos ele arrojará ao longe, como do meio do côncavo de uma funda. E há de ser que, usando o SENHOR com o meu senhor conforme a todo o bem que já tem falado de ti, e te houver estabelecido príncipe sobre Israel, então, meu senhor, não te será por tropeço, nem por pesar no coração, o sangue que sem causa derramaste, nem tampouco por ter se vingado o meu senhor a si mesmo; e quando o SENHOR fizer bem a meu senhor, lembra-te então da tua serva.”
Terminando Abigail de dizer tais palavras, ouve um silêncio no ar. Alguns imaginaram que Davi teria um ataque de fúria. Se isso acontecesse, a vida de Abigail talvez não fosse poupada.
E agora... se cortou o fio errado... BOOM!
“Então Davi disse a Abigail: Bendito o SENHOR Deus de Israel, que hoje te enviou ao meu encontro (Ufa!) E bendito o teu conselho, e bendita tu, que hoje me impediste de derramar sangue, e de vingar-me pela minha própria mão. Porque, na verdade, vive o SENHOR Deus de Israel, que me impediu de que te fizesse mal, que se tu não te apressaras, e não me vieras ao encontro, não ficaria a Nabal até a luz da manhã nem mesmo um menino.”
E se ela não houvesse se apressado? BOOM!
Há coisas que não podem esperar! Tic-tac, tic-tac, tic-tac...
Se tem um telefonema pra dar, o que está esperando? Se precisa pedir perdão a alguém, por que não pede logo? Se tem que confessar, confesse! Apresse-se! Antes que bomba seja detonada.
Depois de despedida, Abigail, aliviada, retornou à sua casa. Lá chegando, flagrou seu marido bêbado, festejando com os amigos, sem ter a menor ideia do que estava acontecendo. Sabiamente, ela foi para o seu quarto e não lhe contou nada. A mesma Abigail que teve pressa em ir ao encontro de Davi, agora demonstrava a paciência necessária para esperar a hora certa de colocar seu marido a par de tudo o que ocorrera. Se contasse naquela noite, talvez ela armasse uma nova bomba. E esta, quem desarmaria?
Há que se ter discernimento para saber quando apressar-se e quando conter-se e esperar a hora certa.
“Sucedeu, pois, que pela manhã, estando Nabal já livre do vinho, sua mulher lhe deu a entender aquelas coisas; e se amorteceu o seu coração, e ficou ele como pedra.”
Como se não bastasse a reação inusitada de Nabal, que ficou estatelado ante ao que ouvira de sua mulher, dez dias depois, o próprio Senhor tirou sua vida.
Quando Davi soube o que ocorrera a Nabal, seu coração de regozijou, pelo que disse:
“Bendito seja o SENHOR, que julgou a causa de minha afronta recebida da mão de Nabal, e deteve a seu servo do mal, fazendo o SENHOR tornar o mal de Nabal sobre a sua cabeça.”
Quando agimos por conta própria, privamos Deus da oportunidade de manifestar Sua justiça. Não precisamos pleitear nossas próprias causas. Temos um advogado que jamais perdeu causa alguma. Calemo-nos e cedamos a vez a Ele. Deixemos que Ele aja por nós.
Deus não atingiu Nabal com um raio. Isso é coisa de Zeus, não de Deus. O texto não especifica como, mas deixa claro que Ele apenas permitiu que Nabal fosse vítima de sua própria maldade. Algo parecido com o que Paulo fala em Romanos 1: Deus os entrega às suas paixões e eventuais consequências.
Tão logo soube da morte de Nabal, Davi mandou buscar Abigail para que fosse sua esposa. Pode soar-nos estranho. Mas o fato é que naquela cultura, se a mulher ficasse viúva em filhos, ela ficaria desamparada, pois não tinha direito à herança. Davi preocupou-se com Abigail, e a única forma de retribuir-lhe era tornando-a sua esposa. Ademais, quem não gostaria de ter como esposa alguém com tal sabedoria e sensibilidade? Há pessoas que têm o dom de extrair de nós o que temos de melhor. São estas que deveríamos trazer pra perto, sejam como cônjuges, companheiros, sócios, ou simplesmente irmãos. Pessoas através das quais Deus nos impede de fazer besteiras e que estão sempre prontas a deixarem-se usar por Deus para desarmar bombas.
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